Ponto de Vista
Os discriminados povos ciganosPublicada: 19/01/2011 01:16| Atualizada: 19/01/2011 00:14
Consuelo Pondé de Sena

Os discriminados povos ciganosPublicada: 19/01/2011 01:16| Atualizada: 19/01/2011 00:14
Consuelo Pondé de Sena
Calcula-se que existem cerca de um milhão de ciganos no Brasil de hoje. Uma minoria sempre perseguida e humilhada, apesar de também ter contribuído para a formação da gente brasileira.
Esses povos imigrados da Europa entraram no país a partir dos tempos coloniais. Em nossos dias, muitos deles tornaram-se sedentários e, outros tantos, ainda perambulam pelas cidades, tanto nas capitais quanto no interior. Frequentemente são presenças evitadas ou incômodas, olhados com desconfiança. Pessoas vistas com desprezo por muitos, fazem parte dos grupos discriminados.
Agredidos por palavras ou gestos, são ainda acusados de roubar sem dó nem piedade. Não sei até que ponto são realmente pessoas perigosas, capazes de ludibriar a todos que deles se aproximam ou são por eles abordados.
Sua origem é envolta em mistério, assim como suas histórias sempre foram transmitidas de geração a geração, pela oralidade, fato que não confere muita segurança aos estudiosos. Muitos especialistas acreditam que os ciganos são originários da Índia, mas as referências bíblicas a esses povos apontam a sua procedência da antiga Caldeia (região que hoje corresponde ao Iraque). Acreditam num único Deus criador, Devel, o que os aproxima dos povos semitas e não dos indianos, crentes nas várias divindades do seu panteon sagrado.
Constata-se que, tendo raízes no Oriente Médio, surgiram alguns milênios antes de Cristo. Sabe-se igualmente que se deslocaram do Oriente para o Ocidente, alcançando a Europa no final do século XIV. Chegaram numa época terrível, de cruel perseguição do Tribunal da Santa Inquisição. Perseguidos pelo nefando Tribunal da Igreja Católica, foram acusados de heresia porquanto, convivendo com mouros e cristãos, oscilavam entre o paganismo e o cristianismo.
Acresce que, além dos preconceitos em relação à religiosidade, à cultura e ao modo de vida nômade, atravessaram os tempos, não ficando restritos apenas à Idade Média. Muitos séculos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, foram alvo da sanha nazista que defendia a existência de uma raça pura, a ariana, na Europa.
As estatísticas atuais falam da existência de cerca de 2 a 5 milhões de ciganos em todo mundo, concentrados especialmente na Europa Central, em países como a República Checa e Eslovaca, Hungria, Iugoslávia, Bulgária e Romênia.
Ao nos referirmos a esse assunto, temos que tratar da etnia cigana em Portugal, onde não existe tradição desses estudos. Trabalho exaustivo foi feito por Adolfo Coelho (Os Ciganos em Portugal), publicado em 1892, apesar de a presença cigana em Portugal remontar ao século XIV, o que reafirma a hipótese sustentada por Paulo Machado de serem os ciganos a comunidade étnica mais antiga do país.
Esse mesmo estudioso sublinha a exclusão severa desses povos em Portugal, onde chegaram a partir da Estremadura espanhola, procedentes dos Pirineus franceses, sobretudo entre os séculos XIV e XVI.
Segundo Mello Moraes Filho, "doze penitentes chegaram a Paris, em 1427. Eram homens estranhos, de cabelos crespos, acompanhados de mulheres trigueiras em cujas orelhas brilhavam brincos de prata e de pedraria". Estabeleceram-se nas imediações de Saint-Dénis e o povo curioso corria para ouvir daquelas mulheres a 'buena-dicha', ao mesmo tempo em que 'a pilhagem e o roubo estendiam-se pela cidade'.
Sofreram discriminação severa, marcada na ordem jurídica interna, tais como castigos, degredo, expulsão, condenação à morte, interdição de residência. Exemplos de discriminação jurídica podem ser objeto de análise desde tempos muitos antigos até os dias atuais. Em Portugal, somente no final do século XX, foi erradicado do Relatório Anual de Segurança Interna um quadro estatístico, no qual eram considerados suspeitos das práticas de certa criminalidade: negros, ciganos e brancos.
Em todas as pesquisas que realizei nos livros antigos de batismo e casamento do Arquivo da Cúria do Salvador, observei que os ciganos eram anotados nas margens dos assentamentos ao lado dos africanos, numa nítida discriminação desses grupos alienígenas, que viviam no agreste baiano, região que eu estudava.
Como disse acima, os ciganos, apesar de terem sido muito cedo introduzidos no Brasil ainda são mal estudados.
Deve-se ao baiano Mello Moraes Filho contribuição inestimável à ciganologia patrícia, sobre quem tratarei em outro texto.
Publicada: 19/01/2011 01:16| Atualizada: 19/01/2011 00:14Esses povos imigrados da Europa entraram no país a partir dos tempos coloniais. Em nossos dias, muitos deles tornaram-se sedentários e, outros tantos, ainda perambulam pelas cidades, tanto nas capitais quanto no interior. Frequentemente são presenças evitadas ou incômodas, olhados com desconfiança. Pessoas vistas com desprezo por muitos, fazem parte dos grupos discriminados.
Agredidos por palavras ou gestos, são ainda acusados de roubar sem dó nem piedade. Não sei até que ponto são realmente pessoas perigosas, capazes de ludibriar a todos que deles se aproximam ou são por eles abordados.
Sua origem é envolta em mistério, assim como suas histórias sempre foram transmitidas de geração a geração, pela oralidade, fato que não confere muita segurança aos estudiosos. Muitos especialistas acreditam que os ciganos são originários da Índia, mas as referências bíblicas a esses povos apontam a sua procedência da antiga Caldeia (região que hoje corresponde ao Iraque). Acreditam num único Deus criador, Devel, o que os aproxima dos povos semitas e não dos indianos, crentes nas várias divindades do seu panteon sagrado.
Constata-se que, tendo raízes no Oriente Médio, surgiram alguns milênios antes de Cristo. Sabe-se igualmente que se deslocaram do Oriente para o Ocidente, alcançando a Europa no final do século XIV. Chegaram numa época terrível, de cruel perseguição do Tribunal da Santa Inquisição. Perseguidos pelo nefando Tribunal da Igreja Católica, foram acusados de heresia porquanto, convivendo com mouros e cristãos, oscilavam entre o paganismo e o cristianismo.
Acresce que, além dos preconceitos em relação à religiosidade, à cultura e ao modo de vida nômade, atravessaram os tempos, não ficando restritos apenas à Idade Média. Muitos séculos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, foram alvo da sanha nazista que defendia a existência de uma raça pura, a ariana, na Europa.
As estatísticas atuais falam da existência de cerca de 2 a 5 milhões de ciganos em todo mundo, concentrados especialmente na Europa Central, em países como a República Checa e Eslovaca, Hungria, Iugoslávia, Bulgária e Romênia.
Ao nos referirmos a esse assunto, temos que tratar da etnia cigana em Portugal, onde não existe tradição desses estudos. Trabalho exaustivo foi feito por Adolfo Coelho (Os Ciganos em Portugal), publicado em 1892, apesar de a presença cigana em Portugal remontar ao século XIV, o que reafirma a hipótese sustentada por Paulo Machado de serem os ciganos a comunidade étnica mais antiga do país.
Esse mesmo estudioso sublinha a exclusão severa desses povos em Portugal, onde chegaram a partir da Estremadura espanhola, procedentes dos Pirineus franceses, sobretudo entre os séculos XIV e XVI.
Segundo Mello Moraes Filho, "doze penitentes chegaram a Paris, em 1427. Eram homens estranhos, de cabelos crespos, acompanhados de mulheres trigueiras em cujas orelhas brilhavam brincos de prata e de pedraria". Estabeleceram-se nas imediações de Saint-Dénis e o povo curioso corria para ouvir daquelas mulheres a 'buena-dicha', ao mesmo tempo em que 'a pilhagem e o roubo estendiam-se pela cidade'.
Sofreram discriminação severa, marcada na ordem jurídica interna, tais como castigos, degredo, expulsão, condenação à morte, interdição de residência. Exemplos de discriminação jurídica podem ser objeto de análise desde tempos muitos antigos até os dias atuais. Em Portugal, somente no final do século XX, foi erradicado do Relatório Anual de Segurança Interna um quadro estatístico, no qual eram considerados suspeitos das práticas de certa criminalidade: negros, ciganos e brancos.
Em todas as pesquisas que realizei nos livros antigos de batismo e casamento do Arquivo da Cúria do Salvador, observei que os ciganos eram anotados nas margens dos assentamentos ao lado dos africanos, numa nítida discriminação desses grupos alienígenas, que viviam no agreste baiano, região que eu estudava.
Como disse acima, os ciganos, apesar de terem sido muito cedo introduzidos no Brasil ainda são mal estudados.
Deve-se ao baiano Mello Moraes Filho contribuição inestimável à ciganologia patrícia, sobre quem tratarei em outro texto.
imagem arquivo do blog
Comentários
Postar um comentário
DEIXE UM COMENTÁRIO,PERGUNTA OU ALGO QUE POSSA NOS AJUDAR.