Os ciganos modernos (ACHEI AQUI)

Eles preservam a cultura, mas dão valor ao estudo até para defender seus direitos, agora expressos em cartilha do governo


Mirian tinha apenas 12 anos quando passou pelo maior constrangimento da sua vida. Ela estava na sala de aula quando uma menina da sua turma perdeu uma caneta de ouro e, imediatamente, apontou a culpada. "Foi a cigana!", acusou. Mirian, a única aluna que teve a sua mochila revistada na turma, chorava num canto, enquanto os colegas assistiam à humilhação pública. Nada foi encontrado. No dia seguinte, a menina achou a caneta. "Não vai me pedir desculpas?", questionou Mirian. A resposta veio com arrogância: "Não. Porque cigano é ladrão mesmo". Elas se atracaram na frente da diretora e os pais foram chamados na escola. O cigano Alberto, pai de Mirian, acostumado a ser ofendido, ficou calado e de cabeça baixa, mesmo ciente de que a filha era a vítima. Mirian teve de se defender sozinha para permanecer na escola. Naquele momento, decidiu que seria advogada.

Mirian Stanescon, 60 anos, foi a primeira cigana a ter curso superior no País. Ela se formou em direito na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 1973, e resolveu se dedicar à causa dos ciganos Foi procuradora de Nova Iguaçu e, como advogada, elaborou em março, junto ao governo federal, uma cartilha de direitos do seu povo, como o registro do nascimento, saúde e educação públicas, que deverá ser distribuída aos 900 mil ciganos em todo o País. "Estima-se que a Romênia seja o país com a maior comunidade cigana. O Brasil é o segundo", afirma Perly Cipriano, subsecretário de Direitos Humanos da Presidência da República. "Eles ainda são muito perseguidos e precisam da proteção do Estado."

Os primeiros ciganos chegaram ao Brasil em 1574, expulsos da Europa pela Igreja Católica, que os considerava "um povo diabólico". No Brasil, se dividiram entre Calons - de origem portuguesa e espanhola - e Roms, do leste europeu, divididos em sete clãs - Kalderash, Moldowaia, Sibiaia, Roraranê, Lovaria, Mathiwia e Kalê, que se estabeleceram principalmente no Rio de Janeiro, Paraná, Pará, na Bahia e em São Paulo. Durante a segunda guerra mundial, os ciganos europeus perseguidos por Hitler aumentaram o contingente da comunidade brasileira.

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FONTE:REVISTA ISTO É.

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