Poderia ser uma alegoria ao existencialismo de Jean Paul-Sartre, ou melhor, uma ampliação da famosa sentença daquele filósofo francês: "O inferno são os outros". Não o sendo, na medida em que os outros que viajam no comboio e atravessam a paisagem árida da pampa salitreira, num itinerário surreal pelo deserto de Atacama, Chile, têm poucos recursos e paciência para se dedicarem a grandes cogitações sobre terceiros, este livro não deixa de se constituir como um exercício de reflexão sobre as coisas essenciais da vida: o amor, claro, mas também as escolhas que se fazem em nome da sobrevivência e a finalidade da existência.
A voz principal, passageiro num comboio cheio de personagens de óptima carpintaria obrigados a conviver durante os quatro dias e noites que dura a viagem, pertence Lorenzo Anabalón, acordeonista perseguido pela memória da mulher amada, Uberlinda Linares, que julga vislumbrar, nos olhos de uma quiromante, os daquela que o deixou assim, enfeitiçado. Os demais ocupantes, para lá dessa bendita encarnação, são gente que carrega, cada qual, uma condenação: um cego que canta boleros de Julio Jaramillo, uma mulher enlutada que vai resgatar o cadáver do filho, uma menina de 12 anos cujo destino há-de mudar antes do termo do excurso, um prestidigitador em busca do circo que lhe trará a glória, e um grupo de ciganos que comporta a catástrofe. Mas nenhuma tão grande como aquela que os uniu num mesmo destino – estão mortos.
Se o final traz certa reverberações do mexicano Juan Rulfo, esta novela, com apontamentos poéticos disseminados na exacta medida, evoca também o realismo mágico de Garcia Marquéz e, formalmente, Vargas Llosa. Uma convocatória de peso que torna Os Comboios Vão Para o Purgatório, vencedor o Prémio Alfaguara 2010, merecedor de deferência e do melhor acolhimento.
TÍTULO: Os Comboios Vão Para o Purgatório
AUTOR: Hernan Rivera Letelier
EDITORA: Ulisseia
PREÇO: 16,00 €
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