ESCRAVIDÃO EM PORTO ALEGRE, ANO DE 1874

“Na noite de 12 de setembro de 1874, um grupo de sete jovens populares, de cores, profissões e nacionalidades diferentes, reuniram-se para passar uma noite de sábado circulando entre bares de Porto Alegre. Após beberem bastante capilé e cachaça, cearem mocotó e quebrarem várias vidraças de residências com os tijolos tirados de construções, entraram em conflito com outro grupo do qual resultou a morte de um dos amigos, o pardo Lucas.
No processo organizado em decorrência deste acontecimento, uma das testemunhas foi o pedreiro Olímpio Augusto Viriato (nascido nesta Província, 19 anos, solteiro) companheiro da vítima. Uma das questões feitas a Olímpio foi se ele era escravo ou livre, ao que respondeu que não sabia, mas que era cria da casa de Joaquim Mendes Ilha.
Um caso corriqueiro de bebedeira, depredações e que, como tantas vezes acabavam os divertimentos dos populares, terminou na instância policial e judiciária, serve para ilustrar o processo provincial de emancipação. Tratava-se para as elites não só de postergar ao máximo a abolição, que deveria acontecer da forma mais lenta e gradual possível, mas de reelaborar as estratégias de controle sobre os escravos em particular e os trabalhadores urbanos em geral. Neste contexto, os sinais de diferenciação entre escravos e libertos eram confusos, tensionando o dia a dia e evidenciando os limites das táticas de controle.
A proximidade da abolição espalhava sobre a sociedade uma considerável dose de incerteza sobre a condição e o tratamento a ser dado aos trabalhadores, negros principalmente, que carregavam em sua pele o estigma da escravidão. […]
Libertos que ainda não eram ‘de todo libertos’, cativos que para ganharem sua liberdade tinham de continuar trabalhando como criados ‘livres’ aos seus antigos senhores, escravos que como Voluntários (substitutos) defenderam uma Pátria que lhes negava a cidadania.” (Paulo Roberto Staudt Moreira/Faces da liberdade, máscaras do cativeiro)

Foto: Virgílio Calegari – Retrato de estúdio, década de 1890/1900 (acervo do Museu Joaquim José Felizardo)